Querida, desculpe-me essa absurda demora para escrever. Parece que o ópio desse mundo anda fazendo efeito. Nossa boa e velha capital baré é tão caricata, torna-se impossível não usar como exemplo para nossa morosidade global. Aqui na ilha de mato a internet é rápida como os nossos milhares de caramujos africanos, que são tão rápidos que não são pegos também. Nossas estradas são um mosaico de falácias, buracos, de operações tapa-buraco. Nosso transito uma guerra de egos. Nossa política uma amigável conversa entre havaianas roxas.
Parece avant garde chamar nossos políticos de “havaianas roxas” mas ser tão azul, tão vermelho e tão flexível é uma característica exclusiva de nossos governantes e de nossos chinelos tipo exportação. Parece reclamão dizer que nossas ruas são um mosaico, mas temos áreas em que as ruas são só tinta preta sobre o barro, e nos melhores casos uns bons recapeamentos (em bairros nobres é claro). Sobre a guerra de egos basta dizer que em nossas vias principais o objetivo não é chegar a qualquer lugar, sim ocupar um espaço na pista da esquerda, que perdeu seu significado de pista de velocidade para pista dos fodões, que na hora do rush ficam todos parados em seu espaço-destinado-a-macho(s)-alfa(que nem precisam ser machos.).
Quando vou a outras partes do país sempre sou perguntado, ao menos uma vez, se aqui caço e pesco para viver, se temos índios andando pela rua, se vou para a faculdade de canoa, se há animais silvestres pela rua. Aí penso “quem me dera.” Sempre acabo fazendo a linha paciente. Explico que a cidade é uma metrópole local, que toda a economia do norte do país esta ligada a nossa, que nós somos um pólo industrial e que já matamos os animais silvestres que andavam pela rua ( brincadeirinha! ou não...). Se fosse fazer o impaciente diria que é uma cidade de interior com a maior macrocefalia urbana já vista. Vivemos nossos dois milhões de habitantes como em uma cidadezinha. Rejeitando toda novidade como caboquice até virar moda, todo visionário como leso, que quer se aparicer, ou cabocão. A grande vergonha de ser cabocão deve ser viver em harmonia com seu meio ambiente, compreender a natureza, e conviver com ela, alimentar-se dela, realimentá-la com humanidade. Não é possível compreender o próprio meio ambiente em barelândia.
Parece algo simples essa coisa de entender o próprio meio ambiente, mas há sérias restrições quando tratamos de nossa capital. Desde os ternos de nossos queridos roxinhos. Numa cidade em que a temperatura média é de 30º C, terno? Até os habitantes das palafitas que não hesitam em jogar de sofá a merda nos rios onde vivem, nem em chorar cântaros enquanto esses chovem. Cântaros do céu? Dos olhos ou das almas? Mais perguntas sem resposta.
O mundo apresenta-se como um paradoxo, nossa decodificação não pode ficar muito longe de paranóia. Cada dia é um alimento para meu distúrbio de atenção. Abra a boca e feche os olhos. Abra os olhos e feche a boca. Coma lixo.
Enquanto em muitas capitais luta-se pelo passe-livre para os estudantes em Manaus nós temos que engolir 44 meias-passagens. E ao lutar pelas 120, não é tão difícil adivinhar “Olha a leseira baré! Já querem se aparicer” Em uma palavra é Tragicômico.
Uma amiga me disse, que o risível é uma inserção do impossível no possível. Agora vou sair de barétown for a while. A tal da crise que todo mundo insiste em dizer que é financeira gerou uma bolha de não-dinheiro tão grande que se tornou risível. Os números da AIDS na áfrica e a reação de vossa santidade também. A perpetuação de nossas boas e velhas máfias...digo... oligarquias regionais é risível. O fato de milhares de pessoas colocarem aheuaheuehu por vontade “própria” ahuaahauhau gordura da bunda aheueuehaueahea na boca aheuaheuheau é...sem comentários.
Nossa manacaos é o microcosmo mais bem acertado do mundo. Não seria exagero comparar nosso característico forró com todas as outras músicas de contradição sexual. Digo contradição sexual por que um pai deixa sua filha dançar ao som do hit “Agora que sou puta você quer me namorar” Mas se a filha dele tiver nuns amassos mais quentinhos com alguém aí é sacanagem, é nojeira e perversão, mas no creu ta todo mundo em casa.
O que me alivia de tudo isso é que existe outro conceito para a inserção do impossível no possível. Dá-se o nome de dádiva em teologia. Aqueles impossíveis mínimos do dia a dia, aquele pensamento que leva ao acontecimento. Esse fio que puxa meu peito pro teu. A capacidade de auto-transcendência. Que encontra suas condições ideais de expressão nessa situação indescritível que é a atual vida na terra. Nossas ações racionais tomaram tons tão irracionais que é risível e se é risível, finalmente, é visível.
“Ao término de um período de decadência sobrevém o ponto de mutação. A luz poderosa que fora banida ressurge. Há movimento, mas este não é gerado pela força... O movimento é natural, surge espontaneamente. Por essa razão, a transformação do antigo torna-se fácil. O velho é descartado, e o novo é introduzido. Ambas as medidas se harmonizam com o tempo, não resultando daí, portanto, nenhum dano.”
Para: Nóia
amo plus plus plus.
Parabéns!!!
quarta-feira, 10 de junho de 2009
domingo, 14 de dezembro de 2008
O DISCURSO DO DINHEIRO
POR AYN RAND
— Então o senhor acha que o dinheiro é a origem de todo o mal? O senhor já se perguntou qual é a origem do dinheiro? O dinheiro é um instrumento de troca, que só pode existir quando há bens produzidos e homens capazes de produzi-los. O dinheiro é a forma material do princípio de que os homens que querem negociar uns com os outros precisam trocar um valor por outro. O dinheiro não é o instrumento dos pidões, que pedem produtos por meio de lágrimas, nem dos saqueadores, que os levam à força. O dinheiro só se torna possível através dos homens que produzem. É isto que o senhor considera mau Quem aceita dinheiro como pagamento por seu esforço só o faz por saber que ele será trocado pelo produto de esforço de outrem. Não são os pidões nem os saqueadores que dão ao dinheiro o seu valor. Nem um oceano de lágrimas nem todas as armas do mundo podem transformar aqueles pedaços de papel no seu bolso no pão de que você precisa para sobreviver. Aqueles pedaços de papel, que deveriam ser ouro, são penhores de honra; por meio deles você se apropria da energia dos homens que produzem. A sua carteira afirma a esperança de que em algum lugar no mundo a seu redor existem homens que não traem aquele princípio moral que é a origem da produção? Olhe para um gerador de eletricidade e ouse dizer que ele foi criado pelo esforço muscular de criaturas irracionais. Tente plantar um grão de trigo sem os conhecimentos que lhe foram legados pelos homens que foram os primeiros a plantar trigo. Tente obter alimentos usando apenas movimentos físicos, e descobrirá que a mente do homem é a origem de todos os produtos e de toda a riqueza que já houve na terra.
Mas o senhor diz que o dinheiro é feito pelos fortes em detrimento dos fracos? A que força o senhor se refere? Não é à força das armas nem dos músculos. A riqueza é produto da capacidade humana de pensar. Então o dinheiro é feito pelo homem que inventa um motor em detrimento daquele que não o inventaram? O dinheiro é feito pela inteligência em detrimento dos estúpidos? Pelos capazes em detrimento dos incompetentes? Pelos ambiciosos em detrimento dos preguiçosos? O dinheiro é feito – antes de poder ser embolsado pelos pidões e os saqueadores – pelo esforço honesto de todo homem honesto, cada um na medida de sua capacidade. O homem honesto é aquele que sabe que não pode consumir mais do que produz. Comerciar por meio do dinheiro é o código dos homens de boa vontade. O dinheiro baseia-se no axioma de que todo homem é proprietário de sua mente e de seu trabalho. O dinheiro não permite que nenhum poder prescreva o valor do seu trabalho, senão a escolha voluntária do homem que está disposto a trocar com você o trabalho dele. O dinheiro permite que você obtenha em troca dos seus produtos e do seu trabalho aquilo que esses produtos e esse trabalho valem para os homens que os adquirem, e nada mais que isso. O dinheiro só permite os negócios em que há benefício mútuo segundo o juízo das partes voluntárias.
O dinheiro exige o reconhecimento de que os homens precisam trabalhar em benefício próprio, e não em detrimento de si próprio; para lucrar, não para perder; de que os homens não são bestas de carga, que não nascem para arcar com o ônus da miséria; de que é preciso oferecer-lhes valores, não dores; de que o vínculo comum entre os homens não é a troca de sofrimento, mas a troca de bens. O dinheiro exige que o senhor venda não a sua fraqueza à estupidez humana, mas o seu talento à razão humana; exige que o senhor compre não o pior que os outros oferecem, mas o melhor que o seu dinheiro pode comprar. E, quando os homens vivem do comércio – com a razão e não à força, como árbitro irrecorrível –, é o melhor produto que sai vencendo, o melhor desempenho, o homem de melhor juízo e maior capacidade – e o grau da produtividade de um homem é o grau de sua recompensa. Este é o código da existência cujo instrumento e símbolo é o dinheiro. É isto que o senhor considera mau?
Mas o dinheiro é só um instrumento. Ele pode levá-lo aonde o senhor quiser, mas não pode substituir o motorista do carro. Ele lhe dá meios de satisfazer seus desejos, mas não lhe cria desejos. O dinheiro é o flagelo dos homens que tentam inverter a lei da causalidade – os homens que tentam substituir a mente pelo seqüestro dos produtos da mente. O dinheiro não compra felicidade para o homem que não sabe o que quer; não lhe dá um código de valores se ele não tem conhecimento a respeito de valores, e não lhe dá um objetivo, se ele não escolhe uma meta. O dinheiro não compra inteligência para o estúpido, nem admiração para o covarde, nem respeito para o incompetente. O homem que tenta comprar o cérebro de quem lhe é superior para servi-lo, usando dinheiro para substituir seu juízo, termina vítima dos que lhe são inferiores. Os homens inteligentes o abandonam, mas os trapaceiros e vigaristas correm a ele, atraídos por uma lei que ele não descobriu: o homem não pode ser menor do que o dinheiro que ele possui. É por isso que o senhor considera o dinheiro mau? Só o homem que não precisa da fortuna herdada merece herdá-la – aquele que faria sua fortuna de qualquer modo, mesmo sem herança. Se um herdeiro está à altura de sua herança, ela o serve; caso contrário, ela o destrói. Mas o senhor diz que o dinheiro corrompeu. Foi mesmo? Ou foi ele que corrompeu seu dinheiro? Não inveje um herdeiro que não vale nada; a riqueza dele não é sua, e o senhor não teria tirado melhor proveito dela. Não pense que ela deveria ser distribuída; criar cinqüenta parasitas em lugar de um só não reaviva a virtude morta que criou a fortuna.
O dinheiro é um poder vivo que morre quando se afasta de sua origem. O dinheiro não serve à mente que não está a sua altura. É por isso que o senhor o considera mau? O dinheiro é o seu meio de sobrevivência. O veredicto que o senhor dá à fonte de seu sustento é o veredicto que o senhor dá à sua própria vida. Se a fonte é corrupta, o senhor condena a sua própria existência. O seu dinheiro provém da fraude? Da exploração dos vícios e da estupidez humana? O senhor o obteve servindo aos insensatos, na esperança de que eles lhe dessem mais do que sua capacidade merece? Baixando seus padrões de exigência? Fazendo um trabalho que o senhor despreza para compradores que o senhor não respeita? Neste caso, o seu dinheiro não lhe dará um momento sequer de felicidade. Todas as coisas que o senhor adquirir serão não um tributo ao senhor, mas uma acusação; não uma realização, mas um momento de vergonha. Então o senhor dirá que o dinheiro é mau. Mau porque ele não substitui seu amor-próprio? Mau porque ele não permite que o senhor aproveite e goze sua depravação? É este o motivo de seu ódio ao dinheiro? O dinheiro será sempre um efeito, e nada jamais o substituirá na posição de causa. O dinheiro é produto da virtude, mas não dá virtude nem redime vícios. O dinheiro não lhe dá o que o senhor não merece, nem em termos materiais nem em termos espirituais. É este o motivo de seu ódio ao dinheiro? Ou será que o senhor disse que é o amor ao dinheiro que é a origem de todo o mal?
Amar uma coisa é conhecer e amar a sua natureza. Amar o dinheiro é conhecer e amar o fato de que o dinheiro é criado pela melhor força que há dentro do senhor, a sua chave-mestra que lhe permite trocar o seu esforço pelo esforço dos melhores homens que há. O homem que venderia a própria alma por um tostão é o que mais alto brada que odeia o dinheiro – e ele tem bons motivos para odiá-lo. Os que amam o dinheiro estão dispostos a trabalhar para ganhá-lo. Eles sabem que são capazes de merecê-lo. Eis uma boa pista para saber o caráter dos homens: aquele que amaldiçoa o dinheiro o obtém de modo desonroso; aquele que o respeita o ganha honestamente. Fuja do homem que diz que o dinheiro é mau. Essa afirmativa é o estigma que identifica o saqueador, assim como o sino indicava o leproso. Enquanto os homens viverem juntos na terra e precisarem de um meio para negociar, se abandonarem o dinheiro, o único substituto que encontrarão será o cano do fuzil. Mas o dinheiro exige do senhor as mais elevadas virtudes, se o senhor quer ganhá-lo ou conservá-lo.
Os homens que não têm coragem, orgulho nem amor-próprio, que não têm convicção moral de que merecem o dinheiro que têm e não estão dispostos a defendê-lo como defendem suas próprias vidas, os homens que pedem desculpas por serem ricos – esses não vão permanecer ricos por muito tempo. São presa fácil para os enxames de saqueadores que vivem debaixo das pedras durante séculos, mas que saem do esconderijo assim que farejam um homem que pede perdão pelo crime de possuir riquezas. Rapidamente eles vão livrá-lo dessa culpa – bem como de sua própria vida, que é o que ele merece. Então o senhor verá a ascensão dos homens que vivem uma vida dupla – que vivem da força, mas dependem dos que vivem do comércio para criar o valor do dinheiro que eles saqueiam. Esses homens vivem pegando carona com a virtude. Numa sociedade onde há moral eles são os criminosos, e as leis são feitas para proteger os cidadãos contra eles. Mas quando uma sociedade cria uma categoria de criminosos legítimos e saqueadores legais – homens que usam a força para se apossar da riqueza de vítimas desarmadas – então o dinheiro se transforma no vingador daqueles que o criaram. Tais saqueadores acham que não há perigo em roubar homens indefesos, depois que aprovam uma lei que os desarme. Mas o produto de seu saque acaba atraindo outros saqueadores, que os saqueiam como eles fizeram com os homens desarmados. E assim a coisa continua, vencendo sempre não o que produz mais, mas aquele que é mais implacável em sua brutalidade. Quando o padrão é a força, o assassino vence o batedor de carteiras. E então esta sociedade desaparece, em meio a ruínas e matanças.
Quer saber se este dia se aproxima? Observe o dinheiro. O dinheiro é o barômetro da virtude de uma sociedade. Quando há comércio não por consentimento, mas por compulsão – quando para produzir é necessário pedir permissão a homens que nada produzem – quando o dinheiro flui para aqueles que não vendem produtos, mas influencia – quando os homens enriquecem mais pelo suborno e favores do que pelo trabalho, e as leis não protegem quem produz de quem rouba, mas quem rouba de quem produz – quando a corrupção é recompensada e a honestidade vira um sacrifício – pode ter certeza de que a sociedade está condenada. O dinheiro é um meio de troca tão nobre que não entra em competição com as armas e não faz concessões à brutalidade. Ele não permite que um país sobreviva se metade é propriedade, metade é produto de saques. Sempre que surgem destruidores, a primeira coisa que eles destroem é o dinheiro, pois os dinheiro protege os homens e constitui a base da existência moral. Os destruidores se apossam do ouro e deixam em troca uma pilha de papel falso. Isto destrói todos os padrões objetivos e põe os homens nas mãos de um determinador arbitrário de valores. O dinheiro era um valor objetivo, equivalente à riqueza produzida. O papel é uma hipoteca sobre riquezas inexistentes, sustentado por uma arma apontada para aqueles que têm de produzi-las. O papel é um cheque emitido por saqueadores legais sobre uma conta que não é deles: a virtude de suas vítimas. Cuidado que um dia o cheque é devolvido, com o carimbo: ‘sem fundos’. Se o senhor faz do mal o meio de sobrevivência, não é de se esperar que os homens permaneçam bons. Não é de se esperar que eles continuem a seguir a moral e sacrifiquem suas vidas para proveito dos imorais. Não é de se esperar que eles produzam, quando a produção é punida e o saque é recompensado. Não pergunte quem está destruindo o mundo: é o senhor. O senhor vive no meio das maiores realizações da civilização mais produtiva do mundo e não sabe por que ela está ruindo a olhos vistos, enquanto o senhor amaldiçoa o sangue que corre pelas veias dela – o dinheiro. O senhor encara o dinheiro como os selvagens o faziam, e não sabe por que a selva está brotando nos arredores das cidades. Em toda a história, o dinheiro sempre foi roubado por saqueadores de diversos tipos, com nomes diferentes, mas cujo método sempre foi o mesmo: tomar o dinheiro à força e manter os produtores de mãos atadas, rebaixados, difamados, desonrados. Esta afirmativa de que o dinheiro é a origem do mal, que o senhor pronuncia com tanta convicção, vem do tempo em que a riqueza era produto do trabalho escravo – e os escravos repetiam os movimentos que foram descobertos pela inteligência de alguém e durante séculos não foram aperfeiçoados.
Enquanto a produção era governada pela força, e a riqueza era obtida pela conquista, não havia muito que conquistar. No entanto, no decorrer de séculos de estagnação e fome, os homens exaltavam os saqueadores, como aristocratas da espada, aristocratas de estirpe, aristocratas da tribuna, e desprezavam os produtores, como escravos, mercadores, lojistas – industriais. Para a glória da humanidade, houve, pela primeira e única vez na história, uma nação de dinheiro – e não conheço elogio maior aos Estados Unidos do que esse, pois ele significa um país de razão, justiça, liberdade, produção, realização. Pela primeira vez, a mente humana e o dinheiro foram libertados, e não havia fortunas adquiridas pela conquista, mas só pelo trabalho, e ao invés de homens da espada e escravos, surgiu o verdadeiro criador da riqueza, o maior trabalhador, o tipo mais elevado de ser humano – o self-made man – o industrial americano. Se me perguntarem qual a maior distinção dos americanos, eu escolheria – porque ela contém todas as outras – o fato de que foram os americanos que criaram a expressão “fazer dinheiro”. Nenhuma outra língua, nenhum outro povo jamais usara estas palavras antes, e sim “ganhar dinheiro”; antes, os homens sempre encaravam a riqueza como uma quantidade estática, a ser tomada, pedida, herdada, repartida, saqueada ou obtida como favor. Os americanos foram os primeiros a compreender que a riqueza tem que ser criada. A expressão ‘fazer dinheiro’ resume a essência da moralidade humana. Porém foi justamente por causa desta expressão que os americanos eram criticados pelas culturas apodrecidas dos continentes de saqueadores.
O ideário dos saqueadores fez com que pessoas como o senhor passassem a encarar suas maiores realizações como um estigma vergonhoso, sua prosperidade como culpa, seus maiores filhos, os industriais, como vilões, suas magníficas fábricas como produto e propriedade do trabalho muscular, o trabalho de escravos movidos a açoites, como na construção das pirâmides do Egito. As mentes apodrecidas que dizem não ver diferença entre o poder do dólar e o poder do açoite merecem aprender a diferença na sua própria pele, que, creio eu, é o que vai acabar acontecendo. Enquanto pessoas como o senhor não descobrirem que o dinheiro é a origem de todo bem, estarão caminhando para sua própria destruição. Quando o dinheiro deixa de ser o instrumento por meio do qual os homens lidam uns com os outros, os homens se tornam os instrumentos dos homens. Sangue, açoites, armas – ou dólares. Façam sua escolha – não há outra opção – e o tempo está esgotando.
(Meu coração vem na boca! A-D-O-R-O!)
— Então o senhor acha que o dinheiro é a origem de todo o mal? O senhor já se perguntou qual é a origem do dinheiro? O dinheiro é um instrumento de troca, que só pode existir quando há bens produzidos e homens capazes de produzi-los. O dinheiro é a forma material do princípio de que os homens que querem negociar uns com os outros precisam trocar um valor por outro. O dinheiro não é o instrumento dos pidões, que pedem produtos por meio de lágrimas, nem dos saqueadores, que os levam à força. O dinheiro só se torna possível através dos homens que produzem. É isto que o senhor considera mau Quem aceita dinheiro como pagamento por seu esforço só o faz por saber que ele será trocado pelo produto de esforço de outrem. Não são os pidões nem os saqueadores que dão ao dinheiro o seu valor. Nem um oceano de lágrimas nem todas as armas do mundo podem transformar aqueles pedaços de papel no seu bolso no pão de que você precisa para sobreviver. Aqueles pedaços de papel, que deveriam ser ouro, são penhores de honra; por meio deles você se apropria da energia dos homens que produzem. A sua carteira afirma a esperança de que em algum lugar no mundo a seu redor existem homens que não traem aquele princípio moral que é a origem da produção? Olhe para um gerador de eletricidade e ouse dizer que ele foi criado pelo esforço muscular de criaturas irracionais. Tente plantar um grão de trigo sem os conhecimentos que lhe foram legados pelos homens que foram os primeiros a plantar trigo. Tente obter alimentos usando apenas movimentos físicos, e descobrirá que a mente do homem é a origem de todos os produtos e de toda a riqueza que já houve na terra.
Mas o senhor diz que o dinheiro é feito pelos fortes em detrimento dos fracos? A que força o senhor se refere? Não é à força das armas nem dos músculos. A riqueza é produto da capacidade humana de pensar. Então o dinheiro é feito pelo homem que inventa um motor em detrimento daquele que não o inventaram? O dinheiro é feito pela inteligência em detrimento dos estúpidos? Pelos capazes em detrimento dos incompetentes? Pelos ambiciosos em detrimento dos preguiçosos? O dinheiro é feito – antes de poder ser embolsado pelos pidões e os saqueadores – pelo esforço honesto de todo homem honesto, cada um na medida de sua capacidade. O homem honesto é aquele que sabe que não pode consumir mais do que produz. Comerciar por meio do dinheiro é o código dos homens de boa vontade. O dinheiro baseia-se no axioma de que todo homem é proprietário de sua mente e de seu trabalho. O dinheiro não permite que nenhum poder prescreva o valor do seu trabalho, senão a escolha voluntária do homem que está disposto a trocar com você o trabalho dele. O dinheiro permite que você obtenha em troca dos seus produtos e do seu trabalho aquilo que esses produtos e esse trabalho valem para os homens que os adquirem, e nada mais que isso. O dinheiro só permite os negócios em que há benefício mútuo segundo o juízo das partes voluntárias.
O dinheiro exige o reconhecimento de que os homens precisam trabalhar em benefício próprio, e não em detrimento de si próprio; para lucrar, não para perder; de que os homens não são bestas de carga, que não nascem para arcar com o ônus da miséria; de que é preciso oferecer-lhes valores, não dores; de que o vínculo comum entre os homens não é a troca de sofrimento, mas a troca de bens. O dinheiro exige que o senhor venda não a sua fraqueza à estupidez humana, mas o seu talento à razão humana; exige que o senhor compre não o pior que os outros oferecem, mas o melhor que o seu dinheiro pode comprar. E, quando os homens vivem do comércio – com a razão e não à força, como árbitro irrecorrível –, é o melhor produto que sai vencendo, o melhor desempenho, o homem de melhor juízo e maior capacidade – e o grau da produtividade de um homem é o grau de sua recompensa. Este é o código da existência cujo instrumento e símbolo é o dinheiro. É isto que o senhor considera mau?
Mas o dinheiro é só um instrumento. Ele pode levá-lo aonde o senhor quiser, mas não pode substituir o motorista do carro. Ele lhe dá meios de satisfazer seus desejos, mas não lhe cria desejos. O dinheiro é o flagelo dos homens que tentam inverter a lei da causalidade – os homens que tentam substituir a mente pelo seqüestro dos produtos da mente. O dinheiro não compra felicidade para o homem que não sabe o que quer; não lhe dá um código de valores se ele não tem conhecimento a respeito de valores, e não lhe dá um objetivo, se ele não escolhe uma meta. O dinheiro não compra inteligência para o estúpido, nem admiração para o covarde, nem respeito para o incompetente. O homem que tenta comprar o cérebro de quem lhe é superior para servi-lo, usando dinheiro para substituir seu juízo, termina vítima dos que lhe são inferiores. Os homens inteligentes o abandonam, mas os trapaceiros e vigaristas correm a ele, atraídos por uma lei que ele não descobriu: o homem não pode ser menor do que o dinheiro que ele possui. É por isso que o senhor considera o dinheiro mau? Só o homem que não precisa da fortuna herdada merece herdá-la – aquele que faria sua fortuna de qualquer modo, mesmo sem herança. Se um herdeiro está à altura de sua herança, ela o serve; caso contrário, ela o destrói. Mas o senhor diz que o dinheiro corrompeu. Foi mesmo? Ou foi ele que corrompeu seu dinheiro? Não inveje um herdeiro que não vale nada; a riqueza dele não é sua, e o senhor não teria tirado melhor proveito dela. Não pense que ela deveria ser distribuída; criar cinqüenta parasitas em lugar de um só não reaviva a virtude morta que criou a fortuna.
O dinheiro é um poder vivo que morre quando se afasta de sua origem. O dinheiro não serve à mente que não está a sua altura. É por isso que o senhor o considera mau? O dinheiro é o seu meio de sobrevivência. O veredicto que o senhor dá à fonte de seu sustento é o veredicto que o senhor dá à sua própria vida. Se a fonte é corrupta, o senhor condena a sua própria existência. O seu dinheiro provém da fraude? Da exploração dos vícios e da estupidez humana? O senhor o obteve servindo aos insensatos, na esperança de que eles lhe dessem mais do que sua capacidade merece? Baixando seus padrões de exigência? Fazendo um trabalho que o senhor despreza para compradores que o senhor não respeita? Neste caso, o seu dinheiro não lhe dará um momento sequer de felicidade. Todas as coisas que o senhor adquirir serão não um tributo ao senhor, mas uma acusação; não uma realização, mas um momento de vergonha. Então o senhor dirá que o dinheiro é mau. Mau porque ele não substitui seu amor-próprio? Mau porque ele não permite que o senhor aproveite e goze sua depravação? É este o motivo de seu ódio ao dinheiro? O dinheiro será sempre um efeito, e nada jamais o substituirá na posição de causa. O dinheiro é produto da virtude, mas não dá virtude nem redime vícios. O dinheiro não lhe dá o que o senhor não merece, nem em termos materiais nem em termos espirituais. É este o motivo de seu ódio ao dinheiro? Ou será que o senhor disse que é o amor ao dinheiro que é a origem de todo o mal?
Amar uma coisa é conhecer e amar a sua natureza. Amar o dinheiro é conhecer e amar o fato de que o dinheiro é criado pela melhor força que há dentro do senhor, a sua chave-mestra que lhe permite trocar o seu esforço pelo esforço dos melhores homens que há. O homem que venderia a própria alma por um tostão é o que mais alto brada que odeia o dinheiro – e ele tem bons motivos para odiá-lo. Os que amam o dinheiro estão dispostos a trabalhar para ganhá-lo. Eles sabem que são capazes de merecê-lo. Eis uma boa pista para saber o caráter dos homens: aquele que amaldiçoa o dinheiro o obtém de modo desonroso; aquele que o respeita o ganha honestamente. Fuja do homem que diz que o dinheiro é mau. Essa afirmativa é o estigma que identifica o saqueador, assim como o sino indicava o leproso. Enquanto os homens viverem juntos na terra e precisarem de um meio para negociar, se abandonarem o dinheiro, o único substituto que encontrarão será o cano do fuzil. Mas o dinheiro exige do senhor as mais elevadas virtudes, se o senhor quer ganhá-lo ou conservá-lo.
Os homens que não têm coragem, orgulho nem amor-próprio, que não têm convicção moral de que merecem o dinheiro que têm e não estão dispostos a defendê-lo como defendem suas próprias vidas, os homens que pedem desculpas por serem ricos – esses não vão permanecer ricos por muito tempo. São presa fácil para os enxames de saqueadores que vivem debaixo das pedras durante séculos, mas que saem do esconderijo assim que farejam um homem que pede perdão pelo crime de possuir riquezas. Rapidamente eles vão livrá-lo dessa culpa – bem como de sua própria vida, que é o que ele merece. Então o senhor verá a ascensão dos homens que vivem uma vida dupla – que vivem da força, mas dependem dos que vivem do comércio para criar o valor do dinheiro que eles saqueiam. Esses homens vivem pegando carona com a virtude. Numa sociedade onde há moral eles são os criminosos, e as leis são feitas para proteger os cidadãos contra eles. Mas quando uma sociedade cria uma categoria de criminosos legítimos e saqueadores legais – homens que usam a força para se apossar da riqueza de vítimas desarmadas – então o dinheiro se transforma no vingador daqueles que o criaram. Tais saqueadores acham que não há perigo em roubar homens indefesos, depois que aprovam uma lei que os desarme. Mas o produto de seu saque acaba atraindo outros saqueadores, que os saqueiam como eles fizeram com os homens desarmados. E assim a coisa continua, vencendo sempre não o que produz mais, mas aquele que é mais implacável em sua brutalidade. Quando o padrão é a força, o assassino vence o batedor de carteiras. E então esta sociedade desaparece, em meio a ruínas e matanças.
Quer saber se este dia se aproxima? Observe o dinheiro. O dinheiro é o barômetro da virtude de uma sociedade. Quando há comércio não por consentimento, mas por compulsão – quando para produzir é necessário pedir permissão a homens que nada produzem – quando o dinheiro flui para aqueles que não vendem produtos, mas influencia – quando os homens enriquecem mais pelo suborno e favores do que pelo trabalho, e as leis não protegem quem produz de quem rouba, mas quem rouba de quem produz – quando a corrupção é recompensada e a honestidade vira um sacrifício – pode ter certeza de que a sociedade está condenada. O dinheiro é um meio de troca tão nobre que não entra em competição com as armas e não faz concessões à brutalidade. Ele não permite que um país sobreviva se metade é propriedade, metade é produto de saques. Sempre que surgem destruidores, a primeira coisa que eles destroem é o dinheiro, pois os dinheiro protege os homens e constitui a base da existência moral. Os destruidores se apossam do ouro e deixam em troca uma pilha de papel falso. Isto destrói todos os padrões objetivos e põe os homens nas mãos de um determinador arbitrário de valores. O dinheiro era um valor objetivo, equivalente à riqueza produzida. O papel é uma hipoteca sobre riquezas inexistentes, sustentado por uma arma apontada para aqueles que têm de produzi-las. O papel é um cheque emitido por saqueadores legais sobre uma conta que não é deles: a virtude de suas vítimas. Cuidado que um dia o cheque é devolvido, com o carimbo: ‘sem fundos’. Se o senhor faz do mal o meio de sobrevivência, não é de se esperar que os homens permaneçam bons. Não é de se esperar que eles continuem a seguir a moral e sacrifiquem suas vidas para proveito dos imorais. Não é de se esperar que eles produzam, quando a produção é punida e o saque é recompensado. Não pergunte quem está destruindo o mundo: é o senhor. O senhor vive no meio das maiores realizações da civilização mais produtiva do mundo e não sabe por que ela está ruindo a olhos vistos, enquanto o senhor amaldiçoa o sangue que corre pelas veias dela – o dinheiro. O senhor encara o dinheiro como os selvagens o faziam, e não sabe por que a selva está brotando nos arredores das cidades. Em toda a história, o dinheiro sempre foi roubado por saqueadores de diversos tipos, com nomes diferentes, mas cujo método sempre foi o mesmo: tomar o dinheiro à força e manter os produtores de mãos atadas, rebaixados, difamados, desonrados. Esta afirmativa de que o dinheiro é a origem do mal, que o senhor pronuncia com tanta convicção, vem do tempo em que a riqueza era produto do trabalho escravo – e os escravos repetiam os movimentos que foram descobertos pela inteligência de alguém e durante séculos não foram aperfeiçoados.
Enquanto a produção era governada pela força, e a riqueza era obtida pela conquista, não havia muito que conquistar. No entanto, no decorrer de séculos de estagnação e fome, os homens exaltavam os saqueadores, como aristocratas da espada, aristocratas de estirpe, aristocratas da tribuna, e desprezavam os produtores, como escravos, mercadores, lojistas – industriais. Para a glória da humanidade, houve, pela primeira e única vez na história, uma nação de dinheiro – e não conheço elogio maior aos Estados Unidos do que esse, pois ele significa um país de razão, justiça, liberdade, produção, realização. Pela primeira vez, a mente humana e o dinheiro foram libertados, e não havia fortunas adquiridas pela conquista, mas só pelo trabalho, e ao invés de homens da espada e escravos, surgiu o verdadeiro criador da riqueza, o maior trabalhador, o tipo mais elevado de ser humano – o self-made man – o industrial americano. Se me perguntarem qual a maior distinção dos americanos, eu escolheria – porque ela contém todas as outras – o fato de que foram os americanos que criaram a expressão “fazer dinheiro”. Nenhuma outra língua, nenhum outro povo jamais usara estas palavras antes, e sim “ganhar dinheiro”; antes, os homens sempre encaravam a riqueza como uma quantidade estática, a ser tomada, pedida, herdada, repartida, saqueada ou obtida como favor. Os americanos foram os primeiros a compreender que a riqueza tem que ser criada. A expressão ‘fazer dinheiro’ resume a essência da moralidade humana. Porém foi justamente por causa desta expressão que os americanos eram criticados pelas culturas apodrecidas dos continentes de saqueadores.
O ideário dos saqueadores fez com que pessoas como o senhor passassem a encarar suas maiores realizações como um estigma vergonhoso, sua prosperidade como culpa, seus maiores filhos, os industriais, como vilões, suas magníficas fábricas como produto e propriedade do trabalho muscular, o trabalho de escravos movidos a açoites, como na construção das pirâmides do Egito. As mentes apodrecidas que dizem não ver diferença entre o poder do dólar e o poder do açoite merecem aprender a diferença na sua própria pele, que, creio eu, é o que vai acabar acontecendo. Enquanto pessoas como o senhor não descobrirem que o dinheiro é a origem de todo bem, estarão caminhando para sua própria destruição. Quando o dinheiro deixa de ser o instrumento por meio do qual os homens lidam uns com os outros, os homens se tornam os instrumentos dos homens. Sangue, açoites, armas – ou dólares. Façam sua escolha – não há outra opção – e o tempo está esgotando.
(Meu coração vem na boca! A-D-O-R-O!)
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Onírica
E meus olhos abriram-se acordando onde deveriam acordar.
As paredes aúreas, os mosaicos no solo, como sempre e como nunca.
A porta da casa desemboca em um mar de escamas alaranjadas.
Onde todas as mentiras faziam-se chagas sobre a pele de todos.
Em meio a paisagem dourada as almas puras regurgitavam plástico azul.
E as jovens esquartejadas chamavam-me ao sexo, junto ao acordar calmo da melancolia
Que vinha me seguindo num arrastar esquálido, lambendo meu pescoço com sua língua pálida.
Com meu choro veio o corar do ar melancólico.
Assistia-a ascender como um dragão de escamas alaranjadas de ferrugem.
Enquanto meus pés me empurravam para dentro do labirinto bizantino de paredes de ouro.
E minhas pernas infladas de ácido lático, imersas em sucos gástricos.
Corriam como um guepardo de pelos de cristal.
Pelas vias estreitas meus ombros debatiam-se contra quinas de metal dourado poroso.
Sentia o cheiro acre da bile que escorria acumulando-se no chão escorregadio.
E a voz em meio tom repetia como um mantra védico em meus ouvidos:
- Meu nome é Deus, e eu te odeio!
E saindo de minha forma felina, derrubando as paredes gástricas do destino.
Sentindo o vibrar de minhas pernas, e da voz que me seguia, parei num suspiro profundo.
Seguido do riso. E os olhos igneos do dragão enferrujado já queimavam minha pele.
Quando fez a gargalhada. E minha boca disse como um espasmo: Eu sou a estupidez que te ama.
Foi quando os olhos arredondaram-se e o medo fez em flama.
E então abri os olhos e o mundo em volta sorria como um canastrão.
Senti o cheiro dos corredores. E com bafo de noite maldormida.
Bradei ao dragão que me queima: Sou o espírito humano, o espírito estúpido. Faço do teu ódio amor. E de minha vida uma gota no teus oceanos.
As paredes aúreas, os mosaicos no solo, como sempre e como nunca.
A porta da casa desemboca em um mar de escamas alaranjadas.
Onde todas as mentiras faziam-se chagas sobre a pele de todos.
Em meio a paisagem dourada as almas puras regurgitavam plástico azul.
E as jovens esquartejadas chamavam-me ao sexo, junto ao acordar calmo da melancolia
Que vinha me seguindo num arrastar esquálido, lambendo meu pescoço com sua língua pálida.
Com meu choro veio o corar do ar melancólico.
Assistia-a ascender como um dragão de escamas alaranjadas de ferrugem.
Enquanto meus pés me empurravam para dentro do labirinto bizantino de paredes de ouro.
E minhas pernas infladas de ácido lático, imersas em sucos gástricos.
Corriam como um guepardo de pelos de cristal.
Pelas vias estreitas meus ombros debatiam-se contra quinas de metal dourado poroso.
Sentia o cheiro acre da bile que escorria acumulando-se no chão escorregadio.
E a voz em meio tom repetia como um mantra védico em meus ouvidos:
- Meu nome é Deus, e eu te odeio!
E saindo de minha forma felina, derrubando as paredes gástricas do destino.
Sentindo o vibrar de minhas pernas, e da voz que me seguia, parei num suspiro profundo.
Seguido do riso. E os olhos igneos do dragão enferrujado já queimavam minha pele.
Quando fez a gargalhada. E minha boca disse como um espasmo: Eu sou a estupidez que te ama.
Foi quando os olhos arredondaram-se e o medo fez em flama.
E então abri os olhos e o mundo em volta sorria como um canastrão.
Senti o cheiro dos corredores. E com bafo de noite maldormida.
Bradei ao dragão que me queima: Sou o espírito humano, o espírito estúpido. Faço do teu ódio amor. E de minha vida uma gota no teus oceanos.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
De minhas certezas incertas
Há uma porção de coisas certas nessa vida, há também quem diga que não.
Mas eu estou pleno de que virá um clarão do leste, e o sol nos iluminará por aproximadamente doze horas. Depois virá a lua e nos banhará por outras doze, depois vamos nos dar conta que isso não importa. É quase certo que isso se dê aproximadamente vinte uma mil vezes. Depois de algumas delas descobriremos que assim como não importa o que acontece com nosso herói. Não importa muito quantas vezes acontecerá, quantos dias viveremos... Importa o que é feito de cada um deles. Assim como nossa consciência inconsciente de nossos átomos, assim como a inconsciência consciente do cosmos para conosco.
É certo também que dentro desse aglomerado, que finge o caos, haverão milhões de consciências, milhões de memórias. Há algo certo sobre nossas memórias também. Rememoraremos cada derrota, das vitórias ficarão apenas as que trouxerem o tempero do medo. E isso pouco importa também, pois memórias são só caricaturas do passado. Pois mais certo que tudo isso, é que o passado é só uma prisão, e o futuro apenas uma incerteza.
E voltamos para nosso sol nascente. Nosso dia, e nosso dia-a-dia. O que é feito dele, o que é construído nele, o que é destruído nele. O que é. Certo também como disse Kerouac que ‘’A mente é o Criador, sem razão nenhuma, por toda esta criação, criada para ruir’’. E mais certo que isso é que a única coisa mais bonita que a criação de uma mente, é sua ruína, o sabor que o cosmos dá a tudo que dele faz parte. Como um whiskey num potstill, como um queijo putrefato, como um beijo dormido, um livro amarelado, como as paredes derruídas, como o olhar calmo numa varanda de fim-de-vida.
Depois de um tempo descobrimos que vivemos dentro de um potstill, descobrimos que o cosmos só é sarcástico com quem entenderá suas piadas. Que virar a outra face não significa simplesmente esperar por outro tapa, mas ter a coragem de levantar a cabeça depois de cada golpe, que a honra não está na vitória, por que na verdade não é uma luta. É uma questão de mero controle, que os corcéis de nosso espírito, assim como os que podem um dia estar entre nossas pernas, são mais fortes que nós. Temos de domá-los, que não é sobre coerção é sobre coordenação. Que o solo não existe sem a música, e que as vezes ela fica mesmo sem graça sem ele.
É certo que não existe um sentido na vida, além do que se vê. Ela não para, é um carro sem freios. E é onde entra a escolha, podemos fechar os olhos esperar o choque, ou abri-los bem, e chegar onde a estrada nos levar, o mais engraçado é que não, isso também não importa. Por que passado o susto são só as paisagens, as músicas no rádio, as não-palavras na cabeça.
Mais certo que tudo isso é que somos só um pedacinho muito pequeno do todo, e que isso é tão ínfimo quanto nós perante esse todo. Pois nossa existência reside em nossas mentes, e nossos peitos. E que as vezes nosso peito controla nossa mente rumo a criação, mas é mais importante que nossa mente controle o peito, pois este nunca perde sua pureza e pouco desse mundo é puro.
E isso tudo não importa se não lembrarmos que as vezes vale a pena perder a cabeça, mas nunca o coração.
Mas eu estou pleno de que virá um clarão do leste, e o sol nos iluminará por aproximadamente doze horas. Depois virá a lua e nos banhará por outras doze, depois vamos nos dar conta que isso não importa. É quase certo que isso se dê aproximadamente vinte uma mil vezes. Depois de algumas delas descobriremos que assim como não importa o que acontece com nosso herói. Não importa muito quantas vezes acontecerá, quantos dias viveremos... Importa o que é feito de cada um deles. Assim como nossa consciência inconsciente de nossos átomos, assim como a inconsciência consciente do cosmos para conosco.
É certo também que dentro desse aglomerado, que finge o caos, haverão milhões de consciências, milhões de memórias. Há algo certo sobre nossas memórias também. Rememoraremos cada derrota, das vitórias ficarão apenas as que trouxerem o tempero do medo. E isso pouco importa também, pois memórias são só caricaturas do passado. Pois mais certo que tudo isso, é que o passado é só uma prisão, e o futuro apenas uma incerteza.
E voltamos para nosso sol nascente. Nosso dia, e nosso dia-a-dia. O que é feito dele, o que é construído nele, o que é destruído nele. O que é. Certo também como disse Kerouac que ‘’A mente é o Criador, sem razão nenhuma, por toda esta criação, criada para ruir’’. E mais certo que isso é que a única coisa mais bonita que a criação de uma mente, é sua ruína, o sabor que o cosmos dá a tudo que dele faz parte. Como um whiskey num potstill, como um queijo putrefato, como um beijo dormido, um livro amarelado, como as paredes derruídas, como o olhar calmo numa varanda de fim-de-vida.
Depois de um tempo descobrimos que vivemos dentro de um potstill, descobrimos que o cosmos só é sarcástico com quem entenderá suas piadas. Que virar a outra face não significa simplesmente esperar por outro tapa, mas ter a coragem de levantar a cabeça depois de cada golpe, que a honra não está na vitória, por que na verdade não é uma luta. É uma questão de mero controle, que os corcéis de nosso espírito, assim como os que podem um dia estar entre nossas pernas, são mais fortes que nós. Temos de domá-los, que não é sobre coerção é sobre coordenação. Que o solo não existe sem a música, e que as vezes ela fica mesmo sem graça sem ele.
É certo que não existe um sentido na vida, além do que se vê. Ela não para, é um carro sem freios. E é onde entra a escolha, podemos fechar os olhos esperar o choque, ou abri-los bem, e chegar onde a estrada nos levar, o mais engraçado é que não, isso também não importa. Por que passado o susto são só as paisagens, as músicas no rádio, as não-palavras na cabeça.
Mais certo que tudo isso é que somos só um pedacinho muito pequeno do todo, e que isso é tão ínfimo quanto nós perante esse todo. Pois nossa existência reside em nossas mentes, e nossos peitos. E que as vezes nosso peito controla nossa mente rumo a criação, mas é mais importante que nossa mente controle o peito, pois este nunca perde sua pureza e pouco desse mundo é puro.
E isso tudo não importa se não lembrarmos que as vezes vale a pena perder a cabeça, mas nunca o coração.
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Quero
Quero, querer...
Quero mais um vicio, uma cama
Quero um hospicio, uma Chama
Eu quero(...)menos a mais...
(...)Aah!
Quero uma desgraça, uma ameaça, fumaça
Explosão, caos, desunião, formol, lençol, colchão, chão!
Quero nulidade, imaturidade, infestação
indiferença, descrença, desilusão, disparate
despertar, desalento, desatenção, disperção
Quero meu veneno, tudo mais quero...
Quero nada de "tudo de bom"!
Quero errar o tom, calar o som...
Quero música dissonante, quero mundo distante!
Quero ver padecer o sol...
Quero ver ruir a luz da lua...
Quero o frio de cada rua.
Quero tomar o mal, tragar o fel
Quero estar mais longe do céu
Quero estar mais perto da dor
Quero rasgar a chaga-mor
Quero usura, pecado, Morrer ao leo
Quero ser menos de mim
Quero ser longe, não ser assim
Quero o fio, de cobre, ou navalha...
Quero a honra, - negra Mortalha!-,
Quero tocar o ultimo galho,
Quero Cair d última folha,
Quero ser a gota de orvalho,
Chorar, se te fizer sorrir, CARALHO!
Quero mais um vicio, uma cama
Quero um hospicio, uma Chama
Eu quero(...)menos a mais...
(...)Aah!
Quero uma desgraça, uma ameaça, fumaça
Explosão, caos, desunião, formol, lençol, colchão, chão!
Quero nulidade, imaturidade, infestação
indiferença, descrença, desilusão, disparate
despertar, desalento, desatenção, disperção
Quero meu veneno, tudo mais quero...
Quero nada de "tudo de bom"!
Quero errar o tom, calar o som...
Quero música dissonante, quero mundo distante!
Quero ver padecer o sol...
Quero ver ruir a luz da lua...
Quero o frio de cada rua.
Quero tomar o mal, tragar o fel
Quero estar mais longe do céu
Quero estar mais perto da dor
Quero rasgar a chaga-mor
Quero usura, pecado, Morrer ao leo
Quero ser menos de mim
Quero ser longe, não ser assim
Quero o fio, de cobre, ou navalha...
Quero a honra, - negra Mortalha!-,
Quero tocar o ultimo galho,
Quero Cair d última folha,
Quero ser a gota de orvalho,
Chorar, se te fizer sorrir, CARALHO!
domingo, 6 de abril de 2008
Pedaço de outra carta...
Poha Nora, parece sacanagem quando eu penso que a gente já namorou, que eu te ouvi entre os sopros da gaita, ouvi você soluçar. Vi primeiro seus dedos roxos naquele sapato preto que você ama, depois seu cabelo escondendo metade das canelas. Esse mesmo sol de agora cruzando atrás de você mostrando algumas sombras de parabrisas dos carros nos estacionamento, e suas lágrimas brilhando nos degraus.
Claro que não consegui mais tocar. É uma puta sitação desconcertante quando a gente tem de passar por um lugar e tem alguem desconhecido chorando lá. Mordi os lábios meio de lado, fazendo cara de situação constrangedora, eu sempre faço, mesmo que ninguem vá ver... Andei pra um lado, e pro outro. Olhei você de novo, abraçada nos joelhos, com o queixo sobre eles, seus olhinhos vermelhos meio vesgos, achei terno, fiquei meio triste mesmo... Até você sorrir com uma expressão que só consigo ligar a frase ‘‘é foda, né?’’ entortando minha cabeça num meio sorriso, um “é...”. Pensei, né? Em perguntar alguma coisa, mas nem da pra perguntar nada nessas horas, uma guria que eu num conheço de camisa de dormir e sapato de festa, chorando na escada da lavanderia. Era melhor elogiar os sapatos, mas você tava provavelmente puta com tudo, sei lá o que eu pensei de você naquela hora... Fiquei te olhando de cabeça torta. Até você dizer rindo “E aí, como eu tô?” “Num parece bem, mas os sapatos são legais.” “É, tá apertando aqui” e apontou com o dedo, para o lado do dedão, onde tava roxo “Mas são os meus preferidos, acho que a gente tem que tar com algo que a gente goste quando tá triste” “É uma boa, nunca tinha pensado nisso, mas é uma boa.” “Eu sempre uso sapatos bonitos quando fico triste, a gente acaba olhando pros sapatos mesmo, quando tá pra baixo.” “É ficar pra baixo tem dessas de olhar pra baixo, cê quer subir pra tomar um café, e ver se volta a olhar pra frente?” “É, eu num tenho mesmo pra onde ir...”
Claro que não consegui mais tocar. É uma puta sitação desconcertante quando a gente tem de passar por um lugar e tem alguem desconhecido chorando lá. Mordi os lábios meio de lado, fazendo cara de situação constrangedora, eu sempre faço, mesmo que ninguem vá ver... Andei pra um lado, e pro outro. Olhei você de novo, abraçada nos joelhos, com o queixo sobre eles, seus olhinhos vermelhos meio vesgos, achei terno, fiquei meio triste mesmo... Até você sorrir com uma expressão que só consigo ligar a frase ‘‘é foda, né?’’ entortando minha cabeça num meio sorriso, um “é...”. Pensei, né? Em perguntar alguma coisa, mas nem da pra perguntar nada nessas horas, uma guria que eu num conheço de camisa de dormir e sapato de festa, chorando na escada da lavanderia. Era melhor elogiar os sapatos, mas você tava provavelmente puta com tudo, sei lá o que eu pensei de você naquela hora... Fiquei te olhando de cabeça torta. Até você dizer rindo “E aí, como eu tô?” “Num parece bem, mas os sapatos são legais.” “É, tá apertando aqui” e apontou com o dedo, para o lado do dedão, onde tava roxo “Mas são os meus preferidos, acho que a gente tem que tar com algo que a gente goste quando tá triste” “É uma boa, nunca tinha pensado nisso, mas é uma boa.” “Eu sempre uso sapatos bonitos quando fico triste, a gente acaba olhando pros sapatos mesmo, quando tá pra baixo.” “É ficar pra baixo tem dessas de olhar pra baixo, cê quer subir pra tomar um café, e ver se volta a olhar pra frente?” “É, eu num tenho mesmo pra onde ir...”
segunda-feira, 24 de março de 2008
Memórias de cartas
Melhor ainda, não são papais, mamães, filhinhos. Amar. Escolher pelos meios que o mundo nos deu, tudo isso que flui da sua boca, tudo isso que você não se cansa de dizer, tudo isso que você, e não só você me fez entender, mas ainda é cedo para explicar. São os arrepios de todos os encontros e desencontros de todos os nossos dias, de todos os nossos beijos, abraços, caricias, espaços, sonhos, puxões, empurrões, cortes, viagens, passagens, mortes, bagagens ( haha, é você! E o sonho não vai acabar, e continua você...)
E quantas bagagens, e quanta bagagem...Quantos dias tornados em meses quantas horas batendo em nossas caras entre chorar e não chorar, entre amolecer e continuar a viver, entre o desespero de querer ficar junto, a necessidade de manter-se separado. A fluência emotiva de viver outras realidades, mais amores, mais separações, e bem mais coração todos os dias. A coisa mais dolorosa e tola: Nada nem ninguém é apagado. A vida sempre vai ser o que aconteceu até hoje, não existem negações de motivos, não existem justificativas mais plausíveis que as circunstâncias. Claro que podemos mudar o mundo, mas o mundo é ( como você mesmo diz) muito grande e muito pequeno, e essa distancia física nós não temos mesmo direito de alterar, é nossa vida, e mesmo tendo sido arrancada de tantos lugares, tendo sido tragada para lugares, vidas, e realidades tantas vezes, eu sei e você também sabe, que foi o caminho até aqui, de olhos fechados ou abertos não mudaria nenhum desses passos, por que foram esses que nos trouxeram até aqui. E aqui é o lugar onde nós alteramos as distancias como sonhamos por todos os anos, o ponto onde eu sei que não viveríamos um sem o outro. Onde viveremos assim...uma costura por fora do espaço.
E quantas bagagens, e quanta bagagem...Quantos dias tornados em meses quantas horas batendo em nossas caras entre chorar e não chorar, entre amolecer e continuar a viver, entre o desespero de querer ficar junto, a necessidade de manter-se separado. A fluência emotiva de viver outras realidades, mais amores, mais separações, e bem mais coração todos os dias. A coisa mais dolorosa e tola: Nada nem ninguém é apagado. A vida sempre vai ser o que aconteceu até hoje, não existem negações de motivos, não existem justificativas mais plausíveis que as circunstâncias. Claro que podemos mudar o mundo, mas o mundo é ( como você mesmo diz) muito grande e muito pequeno, e essa distancia física nós não temos mesmo direito de alterar, é nossa vida, e mesmo tendo sido arrancada de tantos lugares, tendo sido tragada para lugares, vidas, e realidades tantas vezes, eu sei e você também sabe, que foi o caminho até aqui, de olhos fechados ou abertos não mudaria nenhum desses passos, por que foram esses que nos trouxeram até aqui. E aqui é o lugar onde nós alteramos as distancias como sonhamos por todos os anos, o ponto onde eu sei que não viveríamos um sem o outro. Onde viveremos assim...uma costura por fora do espaço.
Assinar:
Postagens (Atom)
